O Executivo Engraxate - 22/05/2009  
 
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O Executivo Engraxate


Ontem eu revi o Leonardo, ele é um rapaz que se auto-denomina "o engraxate executivo". A profissão dele é engraxar sapatos. Ele faz isso muito bem e em plena avenida Paulista, em São Paulo. Trabalha com roupa social e usa gravata. Além de ser bom no que faz, ele ainda é prestativo, bem humorado, e ao lustrar o sapato ele faz do calçado um tambor, para tocar um sambinha.

Ele andava sumido, mudou de ponto. Da esquina da Paulista com a Carlos Sampaio, ele foi para o corredor de um restaurante vegetariano que fica ao lado do nosso prédio, um deslocamento de uns 50 metros.

O Leonardo já teve os seus 15 minutos de fama. Ele apareceu no programa do Ratinho e ganhou do mesmo uma cadeira de engraxate super-equipada. Deixou de ser um engraxate ambulante e fixou ponto em frente ao Frans Café, na esquina de uma das mais famosas avenidas do País.

Ele me disse que uma denúncia anônima na prefeitura fez com que os fiscais o obrigassem a sair, e ainda confiscaram a cadeira e demais objetos que ele usava no seu trabalho. Não foi a primeira vez que ele teve esses problemas. Há pouco mais de um ano ele coletava assinaturas para convencer a sub-prefeitura que ele podia continuar atuando na calçada. Fui um dos vários clientes e conhecidos que participou, pelo carisma que ele tem e por ser alguém do bem, enfim, alguém que você gostaria de dar uma força.

O diferencial do Leonardo é a inovação. Ele também é simpático e tem pró-atividade, que são ingredientes interessantes, que ajudam muito, e às vezes são raros de se achar em alguém, mas isso não é xis da questão. O que torna esse personagem diferente é que ele busca novas formas de fazer algo que não é novo, que a priori, pode ser feito por qualquer um.

Ele usa gravata porque engraxava em domicílio, nos escritórios espalhados pela Av. Paulista. Seus trajes lhe garantiam um acesso e aceitação mais fácil, além de lhe dar uma notoriedade que lhe amealhava novos clientes. Não conheço outro similar, que use graxa e gravata.

Em seu novo local, ele comenta que fez uma parceria com o restaurante vegetariano. O corredor, onde ele fica encostado na parede, é grande o suficiente (deve ter uns 40 metros) para ele trabalhar. O restaurante vai providenciar um toldo para o seu abrigo nos dias de chuva e fará uma promoção: a cada 5 idas ao restaurante você ganha uma graxa grátis no sapato.

Falante, o Leonardo me explicou que às sextas, como é casual day, ele não virá de gravata, mas vestirá a camisa do restaurante. Na cadeira dele será colocado uma logomarca do seu patrocinador e parceiro.

O Leonardo já fez um contato com o Bradesco, para ter uma máquina que permita ao cliente pagar no cartão de débito. Segundo ele, este é o terceiro banco que ele tentou isso e foi o primeiro onde ele achou receptividade. Com os olhos brilhando, ele conta que o gerente gostou da idéia e pediu autorização superior para ir em frente.

Além disto, ele fez um convênio com uma sapataria. Você pode deixar o sapato com ele. Ele analisa o serviço, dá o preço e devolve o sapato consertado e engraxado.

É um rapaz novo, cheio de idéias e energia. Com uma origem humilde e sem muito estudo, ele tinha tudo para estar numa esquina vendendo balas ou pedindo uns trocados. Já teve alguns problemas que poderiam tê-lo tirado de cena, mas ele comenta que, no final foi até bom alguém ter feito a denúncia. A perda anterior abriu para ele uma oportunidade melhor.

Ele me fez refletir sobre inovação. Às vezes temos a falsa impressão de que é mais fácil inovar em determinados mercados e com determinados tipos de produto ou serviço. Esse axioma paralisa a criatividade e nos faz permanecer longe de novas idéias, que são, cada vez mais, uma necessidade competitiva, para não virar um commodity.

O Leonardo enxergou um caminho e uma forma diferente de oferecer um serviço que não tem muito como ser diferenciado e dá uma lição diária de como a forma como vemos o mundo pode fazer toda a diferença. Não se trata de um case de Harvard, mas, às vezes, a inspiração de que precisamos está na esquina da rua, engraxando o seu sapato.


Nuno Figueiredo
Signa Consultoria e Sistemas
Diretor Comercial
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