Alta no frete expõe rixa entre B2W e Mercado Livre

Por Adriana Mattos | De São Paulo - 17/04/2018
Fonte: Valor

Mensagem encaminhada a analistas dias atrás pela B2W, dona do Submarino e Americanas.com, deixa exposto o atual nível de disputa por vendas entre a empresa e sua maior rival, o Mercado Livre.

No centro da questão está não só a piora do ambiente concorrencial, como o encarecimento no serviço de entrega dos Correios, que tem afetado a operação de venda on-line de certas empresas.

O Valor apurou que, no dia 4 de abril, a área de relações com investidores (RI) da B2W encaminhou mensagem a analistas por e-mail em que menciona que lojistas do "marketplace" (shopping virtual) do seu "principal concorrente" têm se organizado em campanhas contra novas políticas de frete adotadas por esse rival, diz o texto.

A mensagem tem como foco tratar de um encontro da B2W com lojistas, chamado "Seller Day 2018", ocorrido no dia 3, mas menciona também os fatos relativos ao rival - sem citá-lo nominalmente.

Segundo a mensagem, os lojistas (chamados de "sellers") de São Paulo, que usam o sistema de logística B2W Entrega, poderão usar o pacote de serviços que reúne atendimento ao cliente, frete e armazenagem de forma gratuita até o fim do ano. "O novo serviço, vai acelerar o processo de concentração dos estoques dos principais sellers no B2W Marketplace e vem em um momento em que os sellers se organizam em campanhas contra as novas políticas de frete adotadas pelo nosso principal concorrente e na sequência dos reajustes de preços dos Correios."

Procurada, a B2W preferiu não comentar o assunto.

O Valor apurou que a B2W se refere ao Mercado Livre. O reajuste dos Correios, definido em março, e repassado pelo Mercado Livre aos lojistas naquele mês, teria atingido até 50%, o que irritou parte dos vendedores. Há campanhas em redes sociais contra o aumento.

O Mercado Livre se tornou a maior empresa de comércio eletrônico do país, pela primeira vez, em 2017, tirando a liderança da B2W - que está num fase de transição de formatos. A B2W reduziu a venda direta ao cliente para o modelo de "marketplace" e isso afetou inicialmente a receita.

Dados da área de análise da Bloomberg Intelligence mostram o Mercado Livre com 19,4% de participação de mercado em 2017, versus 11,7% em 2014. Na B2W, a fatia caiu de 19,5% para 18%. Nos sites da Via Varejo (Casas Bahia e Ponto Frio), a queda foi de 15,4% para 5,7%.

"O Mercado Livre foi tentando atrair clientes em torno do serviço de entrega do 'Mercado Envios', que só usa os Correios, e 'jogando' o máximo de lojistas dentro dessa cesta. Em contrapartida, o lojista vai ganhando notas mais altas [o rating do site]. Já a B2W começou a atrair vendedores pela estrutura da B2W Entrega", diz Roberto Wajnsztok, sócio da consultoria Origin5. "A diferença é que o Mercado Livre usa o sistema da estatal, que encareceu, e a B2W usa muito mais a estrutura de transportadoras terceirizadas, que passaram a ter preços próximos ao dos Correios, algo impensável anos atrás", afirma.

Em março, os Correios elevaram o preço das entregas, mas o Mercado Livre obteve uma liminar contra o reajuste, de 29% em média. No mesmo mês, a liminar foi suspensa. O Mercado Livre já havia afirmado naquele momento que se o aumento prevalecesse, parte dele seria repassado aos lojistas.

Isso tem gerado críticas de vendedores ao Mercado Livre. Dois pequenos lojistas ouvidos informam que em meados de março - após a liminar que impedia o aumento dos Correios ter sido cassada - as taxas de frete do serviço Mercado Envios sofreram alta de até 50%.

A política de frete zero ao consumidor é parte central da estratégia do Mercado Livre no país. Um plano com investimentos para subsidiar o frete grátis foi anunciado em 2017 e ampliado em 2018, mas isso ocorreu antes do anúncio do reajuste dos Correios. O aumento poderia tornar mais caro o subsídio da iniciativa. E lojistas entendem que a empresa estaria repassando parte dessa conta aos vendedores, diz um lojista ouvido.

Procurado, o Mercado Livre afirmou, por meio de nota, que os lojistas do Sudeste têm sentido mais o aumento que tem sido repassado. Essa é exatamente a região em que a B2W tem forte atuação.

Segundo o Mercado Livre, os vendedores precisam "revisar sua estratégia de preço e de oferta de produtos para garantir uma melhor rentabilidade de seus negócios". Os valores de frete, acrescenta a empresa, variam de acordo com a transportadora, e no caso dos Correios, sofreram um reajuste de até 51% para uma inflação anual de 3%. "Apesar do aumento abusivo dos Correios, o Mercado Livre continua subsidiando cerca de 50% do custo do frete quando o vendedor decide dar o benefício de frete grátis ao comprador, além de oferecer nos anúncios a opção de entrega em mãos".

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