Novela do Frete

Por Alvaro Gribel - 19/07/2018 06:00

Termina hoje o prazo de anistia dado a empresas e caminhoneiros após o acordo que encerrou a greve no setor de transportes. O problema é que a ANTT ainda não divulgou a nova tabela do frete e a antiga contém erros já reconhecidos pela própria agência reguladora, explica Maurício Lima, sócio-diretor do Instituto Ilos de Logística. “Ninguém sabe o que vai vigorar a partir de amanhã. A tabela antiga está errada, mas a anistia acaba hoje. A situação afeta toda a indústria, com impacto mais forte no agronegócio e no setor de cimento. A ideia de tabelamento de valor mínimo já é absurda por si só e neste caso o valor ainda não é conhecido”, diz Lima. Ele afirma que há companhias pensando em assumir o próprio transporte, o que afetaria o volume de trabalho destinado aos caminhoneiros autônomos.

Problemas persistem

Na indústria de vidro, o transporte ainda não foi normalizado, conta o superintendente da Abividro, Lucien Belmonte. As perdas com a paralisação, que chegaram a R$ 370 milhões nos 10 dias de greve, ainda estão sendo contabilizadas: “Está faltando caminhão para levar o vidro da fábrica até os compradores. Tem empresa fazendo isso por conta própria. A indústria está sofrendo com dois aumentos de custos. Houve uma forte alta do frete, em torno de 20%, e logo em seguida o preço do gás foi reajustado em 21%. A rentabilidade está comprometida”, lamenta Belmonte.

Choques nos alimentos

Os preços dos alimentos vão subir nos próximos meses, segundo estimativa da consultoria MB Agro. Depois de fechar 2017 com deflação de 4,7%, a projeção é de alta de 4,8% este ano. Os alimentos estão passando por vários choques: a alta do dólar encarece, entre outros produtos, o trigo importado, matéria-prima para a fabricação dos pães e das massas. A guerra comercial entre EUA e China está elevando o preço da soja, que é usada na ração do frango. Além disso, a nova tabela do frete vai pesar sobre o custo logístico porque 100% da produção agrícola do país passa pelas rodovias em algum momento do transporte. No ano passado, a deflação dos alimentos ajudou no consumo. Em julho deste ano, eles já voltaram a ficar mais caros em 0,11% na taxa em 12 meses e devem continuar subindo até dezembro, como mostra o gráfico abaixo.

Gráfico - Inflação de alimentos avança


Ver para crer

O presidente Argentino, Mauricio Macri, foi eleito pregando o ajuste fiscal. Mas ainda não entregou resultados, observa o economista Fábio Giambiagi, que acompanha de perto a realidade do país. O déficit primário em 2016, primeiro ano do governo Macri, foi de 4,7%, maior do que os 4,4% de 2015, último ano de Cristina Kirchner. No ano passado, a taxa recuou para 4,2%, mas ainda foi considerada elevada. A expectativa agora é que com a pressão do FMI o governo consiga reduzir o rombo para 2,8% este ano e chegar a 2020 com um leve superávit de 0,2% do PIB. “Por enquanto, há um ceticismo entre os analistas, mas é um assunto que o Brasil precisará monitorar. Se eles chegarem ao azul, o nosso déficit primário parecerá ainda mais grave”, diz Giambiagi.

FÔLEGO. Pela estimativa da consultoria MacroSector, o crédito ao consumidor terá alta de 6,8% este ano, em valores nominais, com alta de 8,2% no financiamento para aquisição de bens.

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