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sistema de transporte (tms) é e-cargo

Falta de mão de obra qualificada está entre os problemas do setor de transporte de carga

Programas da CNT têm como meta formar 60 mil profissionais este ano
Paulo Henrique Lobato
14/04/2015 06:00

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Monlevade – É na boleia do caminhão da família que Luiz Guilherme, de 9 anos, gosta de acompanhar o pai, Gentil de Souza, de 35, pelo interior de Minas. As idas e vindas do garoto só ocorrem em época de férias ou feriados escolares, pois, conforme ele mesmo destaca, sua “prioridade é o estudo”. A educação de qualidade, responsável pela redução da desigualdade social e econômica em qualquer país, ainda é um grande desafio no Brasil, embora os indicadores tenham melhorado nas últimas décadas. Para se ter ideia, a taxa de analfabetismo das pessoas de 15 anos ou mais está em um dígito (8,5%), contudo, o percentual corresponde a um exército de 13,3 milhões de homens e mulheres. A parcela de quem tem o terceiro grau completo não atingiu ainda dois em cada 10 brasileiros: 13,9%. Os números são do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

O problema na formação educacional compromete a geração de mão de obra qualificada, um dos freios da economia. O tema, que abre o terceiro dia da série Os homens da estrada, inspirada no livro Jorge, um brasileiro, do romancista mineiro Oswaldo França Júnior, é problema tão antigo no país quanto a invenção da roda. A chaga foi alertada pelo protagonista da estória, publicada pela primeira vez em 1967, como a citação em destaque no alto da página. A baixa instrução educacional prejudica a concorrência e trava o avanço de vários setores.

No ramo de transporte de carga rodoviária, onde a leitura é requisito para o chofer obter a carteira de motorista, o déficit gira em torno de 100 mil vagas. Para amenizá-lo, a Confederação Nacional do Transporte (CNT) lançou dois programas: primeira habilitação para o transporte e troca de habilitação. A meta é formar 60 mil profissionais até o fim deste ano. Na prática, a entidade vai financiar o documento aos interessados, desde que se comprometam a trabalhar, por um período, no setor.

“O Brasil tem carência de formação de trabalho em todas as áreas. Em nosso setor, um fato que gerou uma demanda maior que foi o incremento do nível tecnológico dos próprios caminhões, o que fez com que motoristas que tiveram muito tempo de prática com tecnologia antiga se deparassem com outra realidade”, diz Bruno Batista, diretor-executivo da entidade. Essas tecnologias surgiram para preservar o meio ambiente e gerar economia com combustível, por exemplo. “Há controle para abertura de porta, rastreamento, sobre emissão de poluentes, entre outros.” A geração de economia com a tecnologia ameniza as perdas com a má condição da malha rodoviária nacional. “A elevação do custo operacional varia de acordo com a extensão e região. A média no Brasil é em torno de 30%. O condutor tem que trafegar numa velocidade inferior, fazer frenagens com maior frequência, gasto com pneus, suspensão etc..”

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DOMÍNIO COMPLETO Saber dominar as ferramentas de trabalho, portanto, é indispensável ao profissional qualificado. “A produtividade de trabalho no Brasil é um terço de um trabalhador sul-coreano, um quinto do norte-americano e um quarto do alemão. Por essa comparação, não estamos tão bem. Isso é resultado da baixa qualidade do sistema educacional e de um problema que temos em nossa matriz, com pequeno percentual de homens que fazem educação profissional”, avaliou Rafael Luchesi, diretor-geral do Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai), o maior sistema de educação profissional do planeta. Vale lembrar que a economia em retração fomenta o desemprego, aumentando a concorrência pela conquista de uma vaga no mercado formal de trabalho.

Também é preciso destacar que a taxa de desocupação fechou o último trimestre avaliado pelo IBGE, encerrado em fevereiro, em 7,4%, acima do mesmo período do ano anterior (6,8%). O percentual corresponde a 7,4 milhões de pessoas. A disputa por um posto no mercado formal fica mais acirrada com a economia em crise – especialistas acreditam que o Produto Interno Bruto (PIB) vai encolher em 2015. A realidade ajuda a entender a corrida do brasileiro por cursos de qualificação. No Senai, por exemplo, o total de matrículas praticamente dobrou de 2011 para 2014. “Foram 3,8 milhões de matrículas”, disse Luchesi.

O varejo nacional também sofre com a falta de mão de obra qualificada. “Um dos principais problemas para a contratação está relacionado à questão educacional. Infelizmente, em muitos casos, observamos que a base do trabalhador é limitada, o que implica diretamente em sua qualidade como profissional. Além disso, parece existir certa acomodação por parte de alguns trabalhadores, principalmente no período em que estão recebendo o seguro-desemprego. A sensação é de que não existe uma preocupação em buscar uma nova oportunidade de trabalho. Isso diminui ainda mais as possibilidades de se encontrar bons profissionais no mercado”, disse Davidson Cardoso, vice-presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH).

Luiz Guilherme, o garoto que viaja com o pai nas folgas escolares, torce para que o país volte a apurar bons indicadores sociais e econômicos. É o mesmo desejo do pai dele, que não faz cerimônia para dirigir o caminhão sem camisa em época de calor. “Fica muito quente aqui dentro”, justifica o estradeiro, durante um descanso em João Monlevade, na Região Central. No livro, Jorge fazia o mesmo em dias com temperatura elevada: “Eu estava dirigindo sem camisa, que o calor era muito grande e todo mundo trabalhava só de calça”.

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